Fronteiras finais

Por Mario Teixeira

Já tive a oportunidade e o privilégio de visitar algumas das fronteiras finais do planeta: a província da Terra do Fogo, onde está Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, também conhecida como o Fim do Mundo; e Alaska, o estado americano mais associado com a estrela polar e os ventos do Norte. As duas no continente americano. Ambas mostram bem como o pitoresco pode ser uma fonte de turismo, geração de renda e recursos. Mesmo ações iniciadas como rudimentares conseguem transcender na importância do lugar, chamando milhares de turistas durante todo o ano.

Ushuaia, por exemplo, começou como uma colônia penal para presos políticos. O nome Terra do Fogo, segundo um professor de História de Rio Turbio, no sul da Argentina, Miguel Gallo, deve-se ao clarão das fogueiras dos índios da região, avistadas pelos navegadores que atravessavam o Cabo Horn em busca das riquezas chilenas. O termo Patagônia, que representa uma importante região de Argentina e Chile, faz referência às marcas das pisadas dos índios da região, que usavam peles enroladas nos pés.

Ushuaia, depois de passar por um período de prosperidade com a transformação da região em uma zona franca, atraindo inúmeras indústrias para a região e pessoas de todas as províncias, entrou em colapso com a fuga das empresas. Hoje uma das principais receitas da cidade, e também da província, está no turismo. O antigo presídio virou museu; os parques mal cuidados tornaram-se destino de inúmeras vans e furgões que saem do centro da cidade; um lugar isolado, chamado Paso Garibaldi, onde havia a troca de cavalos que levavam mantimentos para os presos ganhou uma placa, mirante e loja de recordações; uma fazenda antiga, com alguns chalés à beira do Lago Escondido, que congela durante o Inverno, tornou-se um restaurante famoso; e a criação de cachorros para trenós de corrida virou atração durante todo o ano.

No Alaska, cidades como Skagway, com 921 habitantes, tem recebido cerca de 1 milhão de turistas por ano com os cruzeiros marítimos que saem de Vancouver, no Canadá, ou Seattle, nos Estados Unidos. A cidade, que viveu a corrida do ouro a partir de 1850, refez sua história através de uma grande cidade cenográfica, com construções imitando o que existia na época. Com isso recebe, durante o Verão, cerca de dois cruzeiros ao dia, transformou grande parte das lojas em venda de souvenirs e oferece uma gama de excursões, quase todas passando para terras canadenses, que movimentam o turismo da cidade. Um passeio de trem custa cerca de US$ 139, por pessoa, com direito a água mineral. São três horas de viagem, sem permitir que os turistas saiam do trem. Cada um dos quatro trens possui 12 vagões, com capacidade para 24 pessoas cada, oferecendo opções pela manhã ou tarde.

Para se ter uma idéia do folclórico, há um rio que corta a cidade onde os salmões passam, no inexorável destino de subir o rio para desova e ser devorado pelos ursos. Há uma quantidade grande de peixes, alguns mortos, cansados do caminho entre o mar e a desova, que podem ser pescados a mão pelos turistas. Esse é um grande atrativo de visitantes de todo o mundo, que já passaram pelo local, perdido nas terras geladas entre o oceano e a fronteira com o Canadá, a poucos quilômetros, e garantem que voltarão mais vezes.

Apenas em termos comparativos, o Rio de Janeiro, conhecida em todo o mundo e um dos destinos de sonho de 70% da população mundial, recebeu na temporada de cruzeiros do último ano 800 mil visitantes. Independente das tarifas portuárias, que estão sendo apontadas pelas empresas de turismo como principal motivo para a fuga dos cruzeiros do Brasil, há de se construir uma alternativa que retome a capacidade carioca. Com todas as opções que temos em termos de praias, montanhas, história e etc, podemos receber muito mais que os cerca de 1 milhão de Skagway, uma cidade escondida no fundo de uma quase fenda glaciar. É preciso criar uma logística capaz de atender a demanda e trabalhar fortemente na construção de uma realidade que atenda aos anseios turísticos do país e a demanda pela Cidade Maravilhosa.

Acho que não seria demérito algum estudar as regras que funcionam em outras regiões turísticas, principalmente as que oferecem menos opções que a capital fluminense, e criar uma política de turismo que envolva as três esferas de governo, lembrando sempre que cada turista que chega movimenta a economia, deixando dólares no país, gerando postos de trabalho com a criação de novos serviços e aquecendo o mercado. É hora de trade turístico intervir para que o país não entre na contramão do mercado mundial e abra oportunidade para outras regiões que não possuem metade do que o Rio de Janeiro tem a oferecer, nem faz parte do imaginário do mundo. Desdenhar de um mercado importante, ainda que sazonal, é desconhecer a capacidade de produção desse setor, que se sustenta não apenas com os roteiros, mas, principalmente, com a propaganda boca a boca. Convencer alguém a voltar a Skagway pode ser difícil; Rio de Janeiro, basta apresentar um bom trabalho.

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