Fé e engenharia preservam a Basílica de Guadalupe

Desde a década de 60 a antiga basílica aparenta sinais de afundamento, o que compromete a segurança dos romeiros

Por Mario Teixeira

Para muitos, a fé é o elemento essencial para a preservação da Basílica da Virgem de Guadalupe, na Cidade do México, a segunda igreja católico-romana mais frequentada no mundo inteiro. Vale lembrar que, apenas no dia 12 de Dezembro de 2013, data do aniversário da aparição da Virgem a Juan Diego, passaram pela igreja da capital mexicana cerca de sete milhões de turistas, entre locais e de várias partes do mundo. A média anual de visitantes é de 20 milhões de peregrinos.

A cada ano o governo acompanha com atenção os peregrinos, temeroso de que, fatigada pelo solo podre da região, a estrutura antiga, que está afundando desde a década de 60, provoque uma tragédia. A inclinação da igreja é visível e engenheiros tentam injetar concreto nas bases, a fim de preservar um dos mais tradicionais patrimônios do país. Entretanto, para os romeiros que lotam todos os dias o complexo da basílica, a fé do povo manterá a igreja de pé por muitos anos.

Peregrinos demoraram a aceitar o desenho da nova basílica

Reiterando que esses são “os mistérios da fé”, os peregrinos entram sem medo na antiga basílica, confiantes de que “a fé que anima a Igreja” é sua principal proteção. O sinal de alerta surgiu na década de 60, quando iniciou o afundamento da estrutura. O renomado arquiteto mexicano Pedro Ramirez Vázquez, autor de projetos como o Estádio Asteca e o Museu Nacional de Antropologia, entre outros, na Cidade do México, e por obras na Basílica de São Pedro, no Vaticano, e no Museu das Culturas Negras, no Senegal, apresenta o projeto a nova igreja, que amplia a capacidade para 10 mil peregrinos sentados e até 40 mil pessoas por missa, em dias festivos.

PROJETO INCOMPREENDIDO

Quando da inauguração da nova basílica da Virgem de Guadalupe, na colina de Tepeyac, na década de 70, o projeto teve certa resistência dos peregrinos. Afinal, acostumados a igrejas tradicionais, com os campanários existentes desde os primórdios da Igreja católica, a nova basílica rompia com os esses conceitos e oferecia visão perfeita da Virgem de qualquer ponto da igreja. A forma circular atendia ainda a uma necessidade antiga, a de mais espaço para os fiéis, que se amontoavam no átrio da basílica antiga quando em épocas festivas, ou mesmo nas missas diárias.

Iluminação do teto representa as estrelas do manto da Virgem de Guadalupe

A falta de uma similaridade com a antiga basílica fez com que muitos “guadalupanos” rejeitassem o novo projeto, fazendo com que o arquiteto Pedro Ramirez Vázquez explicasse todo o conceito que tinha desenvolvido. Primeiro ele mostrou que no alto da basílica estava a louvação à Virgem, com o M, de Maria e Mãe de Deus, junto com a cruz. Da mesma forma, mostrou que a cúpula em cobre era para que, com o tempo, tornasse verde, da cor do manto da Virgem de Guadalupe. Quem observa o teto, pelo lado de dentro da basílica, vê nas luminárias o formato das estrelas existentes no manto, assim como o formato da igreja é um pedido para que o manto da Virgem possa cobrir o mundo, trazendo bênçãos a toda a população.

Nova basílica permite que peregrinos tenham a visão da Virgem de qualquer parte da igreja

Diante da exposição do conceito criativo do projeto, os peregrinos reconheceram no novo templo suas qualidades, incluindo salas para relíquias, como o poncho (ayate) de Juan Diego e demais artefatos. Da mesma forma, passarelas rolantes sob a imagem da Virgem permitem um melhor fluxo de romeiros à contemplação da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, independente das missas que acontecem na basílica.

“EIS O MISTÉRIO DA FÉ”

Para os peregrinos, o principal sinal de que a Virgem está a abençoá-los foi o atentado ocorrido na antiga basílica a 12 de Novembro de 1921. Havia acabado a missa e o padre e o sacristão estava na igreja, quando entra um home, com macacão azul e flores nas mãos, a depositar no altar em frente à imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. O homem, integrante de um grupo que não reconhece a aparição da Virgem, colocara uma bomba entre as flores.

Momentos após depositar o buquê de flores houve uma explosão que sacudiu toda a basílica e o homem foi cercado pelos peregrinos que estavam no local, decididos a linchá-lo. Na ocasião, o padre Antonio Castanheda identificou como um milagre o que ocorreu no local, já que a cortina havia caído, cobrindo a mesa, castiçais e vasos. Um crucifixo de bronze, pesado e maciço, estava envergado. Assim como os vidros da igreja, quadros de santos que estavam próximas também apresentavam enormes rachaduras, ou encontravam-se destruídos. O manto de Juan Diego com a imagem da Virgem, entretanto, estava intacto e o vidro comum que o recobria sem qualquer tipo de arranhão.

Crucifixo destruído durante o atentado à basílica de Guadalupe, em 1921

O responsável foi detido, mas recebeu um salvo conduto do então presidente mexicano, general Álvaro Obregón Salido. Ele ligou para o bispo dizendo que o homem deveria ser levado em segurança até ele. Há quem afirme que o presidente, por diversas vezes, teria perguntado a seus funcionários quem seria valente o bastante para destruir a imagem de Guadalupe, assim como declarado em um discurso, que não descansaria até limpar seu cavalo com o poncho de Juan Diego.

O atentado reforçou a fé na Virgem e levou cada vez mais peregrinos ao local, a fim de agradecer o milagre e pedir novos tempos. O presidente, que se reelegeu em 1928, foi morto ao regressar à Cidade do México para comemorar a vitória. O seminarista José de León Toral, contrário à política anticlerical do presidente, o assassina a tiros durante o banquete da conquista eleitoral no restaurante “La Bombilla”, em San Angel.

A FÉ QUE PODE MATAR

A Capela do Pocito (Capilla del Pocito), parte importante do complexo da Basílica de Guadalupe, teve sua construção iniciada em 1777 e terminada em 1791, pelo arquiteto Francisco de Guerrero y Torres. Em estilo barroco, mescla o modelo europeu com o local, sendo a primeira construção do complexo. O templo preservava a fonte onde o indígena Juan Diego testemunhou a aparição da Virgem.

Capela do Pocito, construída para acabar com as epidemias que surgiram com o uso indevido do local

O local imediatamente passou a ser venerado como fonte de cura de diversas enfermidades e extrapolou a simples utilização de pequenos frascos de água cujas gotas seriam ministradas no dia a dia dos enfermos. Em pouco tempo, pessoas com doenças graves começaram a banhar-se no local, transformando o poço milagroso em área de inúmeras epidemias. A decisão de construir a capela foi uma forma encontrada pela Igreja de controlar o acesso ao poço e evitar novos surtos de contaminação.

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