Turismo espacial pode ser usado para conscientização ambiental

Por Mario Teixeira

 

Espaço, a fronteira final...

Essa frase, que marcou a clássica série Jornada nas Estrelas, iniciada em 1966, nunca esteve tão atual. Num momento em que empresas pensam na colonização de Marte, com a inscrição de pessoas que serão os pioneiros, sem a certeza da volta ao velho planeta Terra, ganha espaço a ideia do turismo que sai do lugar comum e quase atinge as estrelas. Empresas disputam um mercado caro para a grande maioria da população, entretanto, cada vez mais promissor, capaz de garantir uma fila de mais de 220 inscritos para os vôos da companhia holandesa Space Expedition Corporation (SXC), e de cerca de 500 para a Virgin Galactic, que espera fazer seu primeiro voo ainda em 2013. Tudo isso pela oportunidade de observar a Terra de um novo ângulo, ter a sensação da gravidade zero e sentir-se como os primeiros astronautas, chegando a um lugar privilegiado, onde poucos estiveram.

A receita para esse sucesso é antiga. Desde os tempos de Ícaro - que tentou deixar Creta voando, mas teve as asas de cera derretidas pelo calor do sol - a ideia de liberdade sempre esteve associada aos céus, às estrelas. A princípio foram as ideias "voadoras" de Leonardo da Vinci ainda na Idade Média. Séculos depois a teoria tornava-se realidade com os primeiros voos, ainda bem rudimentares; os jatos; as naves espaciais; e a construção de uma estação espacial internacional, que mostrava o poder de transformação de uma realidade até então só em livros. O futuro profetizado em filmes de ficção científica chegava a passos largos. O homem  ganhou o espaço e enviou sondas aos confins do nosso sistema solar, a fim de descobrir planetas que pudessem abrigar formas de vida, esperando o primeiro contato com outras raças, outras civilizações, buscando no espaço as respostas para questionamentos que remontam à Idade da Pedra.

Porém, por mais que se mandem aparelhos, como sondas e telescópios, o grande sonho da Humanidade é observar a Terra a partir de um novo patamar. A SXC está investindo nessa preocupação do homem com seu habitat, acreditando que o turismo espacial pode ser importante para a conscientização ambiental, transformando os turistas em defensores de projetos mais sustentáveis, que protejam a "nossa casa" de situações catastróficas. Segundo a Relações Públicas da companhia, Eva van Pelt, essas viagens serão um grande diferencial na vida dos turistas, colocando-os num local onde poucos estiveram e construindo uma nova visão do planeta, agregando valor educacional e de consciência ambiental.

- Nosso objetivo é transformar as viagens espaciais acessíveis a qualquer um. Esperamos que esse novo mercado possa se transformar na maneira mais rápida e ecológica de se viajar ao redor do globo - ressaltou van Pelt.

O astronauta Buzz Aldrin (centro), que participou da

tripulação da Apolo 11, nas apresentações da SXC (Foto: Divulgação SXC)

 

Preços ainda altos para os pioneiros

O segmento já deve ter seus primeiros avanços esse ano. E já nasce diferenciado. Para ter acesso a essa nova tecnologia, que garantirá aos turistas o pioneirismo na visão do espaço, ainda há a necessidade de se pagar caro. O voo mais barato, da SXC, custa US$ 95 mil (R$ 209 mil, no câmbio de hoje) e leva o turista a 61 km de altitude. A SXC oferece ainda um voo a 103 Km de altitude, a US$ 100 mil (cerca de R$ 220 mil). Enquanto isso, a Virgin Galactic tem o preço de US$ 200 mil (R$ 440 mil) para a oportunidade de se chegar ao espaço. Após o 100º passageiro, a SXC passará a cobrar US$ 100 mil em qualquer voo, em dois pagamentos de US$ 50 mil.

- Há uma diferença essencial entre as duas empresas. Enquanto a SXC tem um voo só do passageiro com o piloto, onde o turista estará no cockpit e terá uma visão única do espaço, podendo sentir-se um astronauta pela amplitude do painel frontal, a Virgin Galactic tem uma nave maior, levando seis passageiros na parte traseira. Em nosso caso, estamos oferecendo um serviço exclusivo, pela metade do valor - frisou Eva van Pelt.

O voo demora cerca de 45 minutos. Com duas pistas e espaçoportos, um em Curaçao, no Caribe, e outro no Deserto Mojave, na Califórnia, as naves Lynx partirão como os aviões normais, com quatro motores que o impulsionarão para o espaço. Ao contrário das naves espaciais feitas anteriormente, incluindo os ônibus espaciais, os sistemas de decolagem e aterrisagem das Lynx são independentes. Uma vez deixando o espaçoporto, aos 58 segundos o turista estará quebrando a barreira do som, sentindo um impulso familiar aos pilotos de aviões de jato e Fórmula 1.

Simulação da rota de voo da Lynx

Aos três minutos de voo o passageiro alcança Mach 2.9, uma velocidade que mesmo os pilotos de caça F-16 raramente experimentam. Para os voos de 103 Km de altitude, aos 60 Km o piloto desliga os jatos, iniciando então o voo parabólico. Os turistas sentirão nesse momento alguns minutos de sensação de gravidade zero. A fronteira oficial do espaço começa aos 100 Km de altitude, onde o céu é totalmente negro, apesar do sol e a curvatura da terra é visível do cockpit. Após cinco ou seis minutos - três a quatro minutos nos voos até 61 Km - é hora de voltar para casa e a nave inicia o processo de aterrisagem. Por conta da gravidade, a nave ganha velocidade rapidamente. Para diminuir a velocidade opiloto executa uma operação de retirada, quando o turista sentirá por 10 a 20 segundos a sensação de 4G (quatro vezes a força da gravidade), sendo que depois a nave irá planar por cerca de 25 minutos, até a aterrisagem.

Qualquer pessoa acima de 18 anos pode participar dessa experiência, desde que esteja clinicamente saudável e não tenha problemas cardíacos. Para maior conforte e segurança do voo aconselha-se que o passageiro tenha no máximo dois metros de altura e 109 Kg. A empresa, entretanto, garantiu que as exceções serão avaliadas.

 

Virgin Galactic testa motores

A empresa Virgin Galactic, fundada pelo milionário britânico Richard Branson, espera ter seu primeiro voo até o final do ano. Em abril a companhia testou com sucesso os motores na nave SpaceShipTwo (SS2), liberando-se do avião WhiteKnightTwo a 14 mil metros de altitude sobre o Deserto Mojave. O motor permaneceu ligado por apenas 16 segundos, suficiente para permitir que a nave alcançasse 1.2 vezes a velocidade do som. Nos próximos testes a Virgin Galactic pretende manter os motores ligados por mais tempo, a fim de alcançar os 100 Km  de altitude.

Equipe da Virgin Galactic (Foto: Divulgação/Virgin Galactic)

Pela popularidade de Richard Branson, alguns famosos acabaram impulsionando ainda mais o projeto. Atores como Ashton Kutcher, Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Angelina Jolie, além de cantores como Justin Bieber, já confirmaram presença nos primeiros voos. Esse combustível precioso fez com que a companhia liderasse as vendas de passagens, ampliando para agência de todo o mundo a oportunidade de oferecer esse novo segmento.

 

Duas agências brasileiras oferecem o serviço

O público brasileiro não ficou fora desse novo mercado turístico. As agências GSP Travel e Teresa Perez Tours são as responsáveis por oferecer no Brasil essa experiência única. Para o presidente da Teresa Perez Tours, Tomas Perez, o turismo espacial deverá despertar cada vez mais o interesse dos brasileiros, uma vez que oferece a oportunidade de se acessar um sonho antigo da Humanidade. Ele acredita que esse pode ser um mercado promissor, com potencial para tornar-se um nicho para aventureiros e sonhadores.

- Assim como acontece com toda tecnologia nova, o acesso a ela é restrito inicialmente e os preços são mais elevados, mas se existe um interesse real do consumidor, o acesso ao serviço se expande através de diferentes fornecedores e ele tende a ter preços menores a médio e longo prazo. Isso aconteceu com os automóveis no início do século 20 e com a ampliação da aviação comercial em meados da década de 50, por exemplo. A entrada da SXC nesse mercado e as viagens espaciais da Virgin Galactic, que já são comercializadas por agências de diferentes partes do mundo, provam que existe demanda e interesse em diversos países. A concorrência é saudável, porque ajuda a democratizar essa idéia com diferentes propostas e preços - explicou Perez.

O diretor da GSP Travel, Ilan Wallach, ressaltou que o perfil do brasileiro que está buscando esse tipo de turismo está na Classe A, tem entre 40 e 60 anos, já viajou para quase todos os destinos do planeta e quer agora um novo desafio. Entre o público, frisou, há expectativas diferentes. Uns querem ver a Terra a partir do espaço, de um novo ângulo, enquanto outros buscam a imensidão do Universo. Sobre valores, Wallach não acredita que seja um mercado caro, já que corresponde ao valor de um carro de luxo e os colocará na história, como as primeiras pessoas comuns a fazerem um voo suborbital.

O grande desafio do segmento é o amadurecimento da ideia entre o público civil, segundo Perez. As pessoas, apontou, precisam confiar e acreditar nesse tipo de serviço para perceberem que esse sonho é possível. As agências autorizadas são chamadas de Accredited Space Agents, profissionais cuidadosamente selecionados e treinados para vender a viagem. Essa deve ser a mais extraordinária experiência turística do século!

- Acredito que o maior desafio a se vencer é a desconfiança. Tenho certeza que quando os primeiros voos começarem a ir e vir, com total segurança, o Brasil se transformará num dos maiores mercados do turismo espacial - concluiu Wallach.

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